O disco onde se transformam em música
os milhares de passos percorridos

"Se não estou no céu,
estou nos seus arrabaldes"
Frei Martinho de Santa Maria, Arrábida 1539

 

Este é o percurso imaginário de um caminheiro que ao nascer do sol sai do Castelo de Palmela e atravessa a Arrábida até chegar ao Cabo Espichel, onde o sol vermelho mergulha no oceano e se despede da jornada.

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1. Caminhos da Ordem de Santiago

Nasce o Sol. Das ameias do Castelo de Palmela olho o horizonte e vejo a noite que desaparece. Gotas de orvalho evaporam-se aos poucos. É altura de partir por caminhos tortuosos, tal cobras que se desenrolam aos primeiros alvores da manhã. Não consigo compreender se os passos que oiço são das minhas botas sobre as pedras soltas ou se são os imortais cascos dos Cavaleiros de Santiago em busca de novas terras para o lusitano reino. Esperam-me vales frondosos de vegetação, com ribeiros saltitantes. Inebriantes os pinhais e as vinhas. Há um espelho que brilha com o sol da manhã, um rio que teimosamente persiste em ser azul. Ouço os gaiteiros, pastores que começam um dia de trabalho e que talvez se dirijam para a capela da Escudeira, branca, sozinha, talvez como a viúva do escudeiro que foi senhor destas terras. Finalmente os moinhos brancos, quase todos parados agora, mas continuamente vigilantes, companheiros de jornada bem diferentes daqueles que afrontaram D.Quixote.

2. Chaminé de Fadas

Um encantamento. Um vale onde se escutam as fadas em amena brincadeira. Vieram de longe, de muito longe, dentro de pedrinhas roladas e boleadas. Viajaram, tal como eu. Viajaram muito, centenas de quilómetros, arrastadas com milhares de irmãs gémeas enroladas em tumultos de água e lama, vieram de leste em tempos em que estes vales foram rasgados por rios de águas fortes. O seu murmúrio é uma prece ao futuro até ao dia em que a Natureza de novo as venha buscar. Assim como eu que caminho, caminho sempre em direcção ao meu destino.

3. Gentes da Terra

A Natureza é fértil e selvagem. Mas o engenho do Homem domesticou-a e criou riquezas. Das videiras colhe-se a uva que vai dar os néctares moscatéis, únicos e seleccionados e o sal que vem trazido pelos ventos do mar, gera um pasto diferente que conseguimos sentir nos queijos únicos de Azeitão. As encostas são verdes de Inverno e louras de Verão, onde os cereais que quase já não existem, são colhidos para criar o pão nos moinhos que restam. A Serra do Louro é modesta em altura, mas encerra em si testemunhos imortais de outros mundos. Bancos de corais e ostras fósseis, surpreendem que os avista no seco topo da cordilheira.

E quem escavou os locais de sacrifícios no alto da serra e as sepulturas colectivas em forma de ventre feminino ? Quem viveu nos castros, descobertos no topo da serra ? Que humores tinham estes nossos antepassados ? Que pensavam eles de nós ? Eram apenas gentes da terra que riam, choravam e amavam.

4. Oh ! Que calma . . .

Não estou sozinho. Acompanham-me todos aqueles que por aqui passaram e que por aqui passarão. A verdade de cada instante é marcada pela calma do tempo. Sinto que os meus passos são seguidos pelo olhar de uma multidão de gente sorridente. A alguns, escorrem gotas de um suor salgado, a outros cavam-se rugas na faces queimadas pelo calor estival e pelas geadas invernais. Há murmúrios e risadas. São muitos e eu sinto-me apenas mais um deles. Por isso sinto e digo: Oh! Que calma . . .

5. Quintas de Azeitão

Aproximo-me da Serra. Deixei para trás um mar de gente e de buliço. Sinto a poesia entrar em mim como o deslizar de uma suave gota de orvalho sobre a folha do carrasco, à qual, teimosamente, mantém-se presa. Eis as quintas brancas num mar de verde, mais escuro ou mais claro, com as molduras quentes de um delicioso vermelho cor de barro. Serena, a Arrábida espera-me. Não há pressas, pois é preciso agarrar em pleno todos os momentos suaves deste caminhar. Guardar as memórias do verde no coração e bombeá-las a todos capilares da nossa existência. Sinto-me só neste instante e, curiosamente, nunca estive tão acompanhado.

6. O Desafio da Arrábida

É agora ! Sei que não será fácil e preparo o galanteio com perícia. Circundo-a, aproximo-me, embrenho-me nos bosques, galgo cascalhos soltos. Intimida-me, mas desafia-me. A cascalheira é última meta para o topo. Ambos ganhamos e oferece-se o Oceano Atlântico aos pés, beijando suavemente a areia dourada das praias de Tróia. O desafio continua, por matos cerrados. Flutuo sobre um mar de verde escuro, recortado a cinzento por esculturas naturais em preservados campos de lapiás. Apenas pequenos montículos de calhaus me mostram o caminho a seguir. Eis que outro desafio nos aparece, tal onda petrificada a Serra do Risco está lá.

Além da maior falésia de Portugal ela representa local de vitória lendária de implantação do reino pela mão do seu primeiro monarca. Hoje é comida aos poucos por um progresso desenfreado que a destrói sem piedade. Pergunto afinal, quem és tu Arrábida ?

7. O Convento

Gotas de um branco puro instalam-se num refúgio único e de verde luz - o Convento.Como limite o azul. Do mar, para conquistadores e amantes; do céu para poetas e frades.Não sei se são as suas fontes que cantam, se o crescer das plantas na horta. Ou serão os passos dos mil degraus da sua existência ? Talvez seja a melodia de um pensamento místico de homens que aqui procuraram (e acharam ?) a sua razão de existir. Martinho, Pedro, Agostinho, Tomás, Paulo ? Pouco importam os nomes, pois estes são símbolos de um existência terrena e redutível a pó. Estou mais leve e mais forte.

8. Marmitas de Gigante

Subo, subo sempre. Vagarosamente. Por companheiro tenho o mar. Tanto mar, que cada vez está mais longe, mais abaixo, e eu na crista desta onda petrificada até ao alto, perto das nuvens onde circulam águias e onde aterram deuses em dias de festa. Depois a aventura de uma descida atlética, para no Vale da Vitória, procurar terra de gigantes imaginários. No leito de uma ribeira, cada gota de água procura o seu destino, o mar. Para isso, liga-se às suas irmãs e em torrente arrasta tudo o que se lhes põe à frente.A sua força, a força da sua unidade, tudo derrota e mesmo os duros calcários são escavados por elas.

Nesta luta de resistência da pedra dura sobre a água mole, ficam as marcas de um combate tumultuoso. Antes das quedas de água, lá estão elas, as Marmitas de Gigante, enormes escavações circulares que se sucedem em tamanhos inacreditáveis. Sinto a minha pequenez face à Natureza, e isso faz de mim mais um gigante entre iguais.

9. Cabo Espichel

Quase sem fôlego estou a chegar ao Cabo Espichel. Afinal muito ainda está para acontecer. Um farol serve-me de guia e mergulho na história de séculos passados ao ver as marcas dos tiros de canhão no velho forte da Baralha. Em silêncio, ouço o murmúrio da água sobre as rochas que serviram de abrigos a gentes da pré-história. Talvez os murmúrios sejam dos soldados do forte que, sobre o sol abrasador, aqui passaram os tormentos da guerra e da sede. Ou será a minha própria respiração ?! Dou a volta ao cabo e de novo o oceano. Estarei numa ilha ?! Ou simplesmente apercebo-me que a vida é sucessão de voltas sobre nós próprios, nunca nos cansando de procurar a saída.

Talvez as mesmas voltas que o mundo deu e que fez desaparecer os dinossáurios, que aqui nos deixaram as suas pegadas.Penso que mundo não é, afinal, este espaço e este tempo de que o Homem se orgulha. É muito mais. Chamam-me as sereias e o sol mergulha no oceano, como laranja bola de fogo a apagar-se de mais uma jornada. Eu olho o horizonte e caminho, caminho sempre, mesmo na direcção do ocaso. Pelo prazer dos grandes espaços.

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