O disco onde se transformam em música
os milhares de passos percorridos

Opiniões | dos autores |

Jorge Calheiros
Há muitos anos que esta ideia andava na minha cabeça: musicar a Arrábida. Não sou músico e por isso nunca o conseguiria fazer sozinho.Conheci o Rui Serodio há alguns anos e começámos a pensar no projecto. Juntou-se o Zé Pedro e a SAL e o CD está aí. Quando alguns insistem em devorá-la e outros, ou os mesmos, em poluí-la, nós associámos a arte musical de Rui Serodio à beleza única que se chama Arrábida. Uma postura um pouco diferente...

José Pedro Calheiros
Coube-me a mim encher de palavras a musicalidade do Rui. Tarefa difícel pois não se tratou de uma tradução. Foi mais um crescimento conjunto. Quando os discos ficaram prontos fui buscá-los à fábrica, no meio das paletes, abri uma caixa de cartão e peguei num. A magia de ver a materialização da obra. Os sonhos podem ser realidade. Basta querermos.

 

Do meu ponto de vista como compositor deste CD, entendo esta obra como um passo decisivo para o lançamento de um novo conceito na divulgação da música contemporânea portuguesa não erudita.

Rui Serodio

Na realidade, o domínio da música erudita contemporânea, com uma linguagem muito hermética, não é ainda acessível à maioria dos ouvintes nem dos compositores.Círculo muito fechado, pelo menos em Portugal, obriga a um esforço enorme de estudo das novas linguagens pela parte dos autores e vai encontrar uma resposta relativamente débil na conquista do mercado consumidor. A música que trazemos a esta nova editora M-Oceans vem trazer uma dinâmica diferente: não sendo erudita, porque de facto não o é, tem, no entanto, uma fortíssima componente académica na sua construção. Senão, notem-se os encadeamentos harmónicos muito actuais, a própria construção dos acordes e a movimentação criativa das suas vozes interiores, os cambiantes exóticos na mudança de tonalidades, a riqueza tímbrica utilizada na instrumentação pelo recurso aos modernos geradores de som digital, que não se encontram normalmente na música de entretenimento que se ouve diariamente nos meios audiovisuais. E, também, é de ter em atenção como este avanço significativo na construção harmónica portuguesa não renega a sua base temática inegavelmente nacional. Ao ouvir-se esta música, sente-se-lhe o paladar lusitano; e não é difícil apercebermo-nos, desde o início da audição, da existência de um sabor melódico muito português que nos define como povo musical por excelência, proprietário legítimo de um cancioneiro popular riquíssimo cujas origens se perdem nos tempos. Temos, efectivamente, um jeito próprio de entoar melodias, com uma tendência acentuada para a melancolia e para os tons menores, e somos o único povo do mundo que trouxe para a linguagem musical a mística quase nebulosa da palavra "saudade". Esta nova linguagem, ainda desconhecida do grande público, vem revelar um grupo de compositores nacionais que escrevem música sem objectivos comerciais de curto prazo, deixando simplesmente voar a sua imaginação por universos sonoros muito reservados ainda, mas onde a cultura portuguesa se reflecte a cada momento. Um passo em frente, portanto, nesta linha de continuidade em que a expressão musical está inserida e que é, seguramente, um elo de ligação para uma futura geração de compositores que pretendem sair das formas musicais já há muito enunciadas e, de algum modo, esgotadas.

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