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Opiniões
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Alfredo
Portugal da Silveira
em "O
Setubalense" de 19/9/2001
"Pela
música nos vamos"
O maestro Rui
Serôdio vai lançar, no próximo dia 22 de
Setembro, um CD, de sua autoria, totalmente dedicado à nossa
tão bela mas mártir Arrábida. Obrigado maestro
pela lembrança.
Se há
quem, embora não devendo, se tivesse esquecido dela, outros
há que não a esqueceram. Na hora certa, na hora
precisa, disseram, - "Estou aqui, conta comigo. Pelo sonho nos
vamos". Rui Serôdio foi um deles. Sem palavras, nem
manifestações de protagonismo, "falou" alto,
da maneira que melhor se sabe exprimir, pela música. E assim,
pela sua música nos fomos...
Os temas que
compõem o CD são de uma sensibilidade tal que nos basta
fechar os olhos para "voarmos" sobre os penhascos e vales
da frondosa serra que Sebastião da Gama tanto cantou e amou.
As palavras do poeta saltam-nos à memória conforme a
música vai evoluindo. Enfim, um sonho tornado realidade que
muito mais agradável se torna se tivermos a possibilidade de o
ouvir no local próprio, digo, na Arrábida.
Falo por mim,
eu ouviu-o lá pela primeira vez. Posso-vos dizer, e confirmar,
que o mar se tornou muito mais azul do que antes era. Que as
árvores e a moitas de rosas silvestres, dançaram ao som
das melodias tocadas pelo maestro. A sua música
"falou-me" de tudo aquilo que os homens, aqueles que
mandam, nos quiseram fazer calar. "Disse-nos" a sua
música, feita de arte e amor, que a serra é um todo e
não tão só pedaços de areia e pedra
soltas aguardando vez para serem consumidas nos altos fornos.
"Fala-nos" a sua música do místico e do
religioso que a envolve e a escondem de nós, simples mortais.
Canta na sua melodia que floresce em cada trecho da partitura o amor,
as paixões vividas, ali sentidas e porque não!? Sofridas.
A musica
enche-nos, enche o ar e em suaves melodias assenhora-se rapidamente
de nós. O coração palpita com mais força
e a imaginação ganha asas. Logo deixa de haver
fornos... "crematórios" e futuras centrais de queima
de resíduos tóxicos. O verde apoderou-se do
espaço nu feito de enormes bocas mudas que as escavadoras
abriram. Só o verde da basta e exótica
vegetação predomina. Cheiros, fortes odores a mato e a
terra lavada, enchem-nos o peito. Os olhos fixam-se no azul.
Céu e terra são unos e nem a linha do horizonte os
distingue. A maldade é palavra vã. O embuste e a
maledicência são apenas pó que a brisa
marítima leva para bem longe no seu aprazível e calmo soprar.
O sol
afaga-nos e aconchega, não castiga. Os sons da serra são
feitos de doces melodias, aquelas que Rui Serôdio soube captar
e gravar no seu CD.
Se
dúvidas ainda houvesse julgo que ali ficaram definitivamente
esclarecidas. Pela música me fui escutando-o vezes sem fim. No
sussurrar das árvores, as palavras do poeta cantador da
Arrábida tiveram mais brilho. Então pensei, - se um a
cantou da maneira como só ele a soube cantar, Rui Serôdio
soube descobrir as melodias que os séculos guardaram nas
cavernas e profundezas da velha Arrábida.
O CD serve
também como protesto e... alerta aos mais
"distraídos". De protesto pelo que dela querem
fazer. Como alerta pelo que dela já fizeram.
Ouvi mais uma
vez o CD que o maestro Rui Serôdio criou com amor e arte.
Quando parou de se escutar a melodia nele registada, pairava ainda no
ar o apelo a justiça que muitos amantes da natureza gritam; -
" Mas será possível que não possamos deixar
às gerações vindouras tão magnânimo
"monumento" à Mãe Natureza como património...!?
Obrigado
maestro, bem haja.
Alfredo
Portugal da Silveira.
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